Caça às bruxas na sala de aula

Felipe Prestes

Aconteceu com um amigo, recém licenciado em Ciências Sociais. Este ano ele começou a dar aulas em um colégio particular de Porto Alegre. Dedicado, sempre estimula os alunos com dicas de livros, eventos culturais, discos e os incentiva a buscar saber o que acontece na esfera política.

Além disso, é claro, ensina os assuntos previstos pela disciplina, dentre os quais, para o terceiro ano do ensino médio, estão os pilares da Sociologia. Durkheim? Ok. Comte? Tranqüilo. Weber? Sem problemas.

 Ah, mas aí chegou a vez do bom velhinho Marx. O professor preparou um material de três páginas, explicando alguns conceitos como a mais valia, exploração, entre outros – sempre deixando claro que se tratavam de conceitos do autor.

Dias depois, a coordenadora informa que pai e mãe de uma aluna desejavam ter uma reunião com ele. Recebe das mãos dela o material que tinha feito, agora cheio de pontuações feitas pelos pais.

A mãe o acusou de “manipulativo” (sic), disse que o cálculo de mais valia “não confere” e sublinhou até mesmo erros de digitação. No fim do texto, escreveu um bilhete com a palavra “interece”, assim mesmo com “c”, acusou o professor de não usar o material didático e de não dar chance aos adolescentes de fazerem sua própria “análise crítica”.

O tal material didático é um livro escrito por ninguém menos que Gilberto Dimenstein, colunista de Veja. Mas aí que estão os nuances da ideologia. A direita tem mais malandragem. Ao invés de contestar Marx, o livro de Dimenstein utiliza a tática que Bordieu chama de “ocultar mostrando”.

Dá uma pequena biografia do alemão, algumas idéias vagas do tipo “sua análise foi muito importante” e depois se atém a mostrar que Marx não seria a favor de igualdade entre os salários nem contrário ao lucro. Os principais conceitos não são abordados.

Voltemos aos pais. O pai da menina chegou ao ridículo de responder as questões propostas pelo professor. A primeira questão perguntava qual seria a solução para acabar com a exploração, ao que o pai respondeu: “Marx propõe soluções utópicas para um problema insolúvel”. Uma outra pergunta pedia para o aluno diferenciar Marx dos autores vistos anteriormente. O pai responde: “Marx se diferencia por sua extrema radicalidade”.    

Não sei se rio ou se choro. Por sorte, a coordenadora da escola tem apoiado o professor. A reunião ainda não aconteceu. Esperamos que, no fim, prevaleça a liberdade de expressão, além da qualidade de ensino. Ocultar as ideias de Marx em uma aula de Sociologia seria um absurdo.

 Mas o legal dessa história é que a menina é muito aplicada nas aulas, o que nos faz pensar que não houve reclamação por parte dela. Tudo indica que no almoço de domingo ela tascou:

 – Pai, por que tu explora teus empregados?

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11 Respostas para “Caça às bruxas na sala de aula

  1. hueuhehuehue..bem elaborado o texto……sem dúvida, a base de toda e qualquer política vem do grande gênio Karl Marx……se a mãe tivesse “interece”pela leitura dos livros do autor(livros aliás….de cabeceira), talvez conseguisse realmente entender o próprio processo econômico de sua familia e, se fôssemos um pouco mais a fundo na questão, perguntaria para o pai qual o sistema econômico mais justo na opinião dele. Certamente, envolvido pela cegueira e pelo bloqueio de pensamentos, diria sem titubear que o capitalismo é o mais correto e justo. (Imaginem justiça no capitalismo)Lhes pergunto…Onde iremos parar?

  2. Cristóvão Feil

    Muito bom, Felipe.

    Exemplos como esse estão cada vez mais corriqueiros na rede escolar, principalmente nas escolas particulares.
    Os professores devem estar preparados para esse embate para além da sala de aula.
    De qualquer forma, acho uma disputa positiva.

    Abç.

    CF

  3. Sim, eu sabia que era corriqueiro, mas quando a gente vê acontecer de perto, dá um choque.

    Lembro-me que no Rosário os professores de história e geografia eram de esquerda, mas não usavam materiais alternativos. Não deixavam rastros. Já alertei meu amigo que talvez seja interessante usar esta tática.

  4. Isso decorre da ignorância de pensar que Marx se resume ao “comunismo”. Ele é muito mais que isso, é a base de um pensamento de sociedade que tem como pano de fundo a luta de classes. Portanto, uma concepção, mais que uma ideologia.

  5. Felipe, eu acho que colocar o nome dos pais, do professor e do aluno seria uma demasia, mas seria muito importante saber o nome do colégio e acompanhar a atitude que a instituição vai tomar — espero que nenhuma.

    Marx foi muito importante para comunistas e não comunistas. O resto é ignorância. Por isso, acho fundamental descobrir se o colégio irá abraçar a caçada ou não.

    Se acreditas que tal atitude exporia teu amigo… Mude o post para uma descoberta jornalística, é só tirar do texto as referências à amizade.

    Fica a sugestão.

    Abraço.

  6. Milton, a princípio o colégio não abraçou a caçada. Se infelizmente isso acontecer, aí sim rende uma matéria mesmo, e as pessoas merecerão saber que colégio é para não colocarem por lá seus filhos.

    Abraço

  7. Muitos tem grande desconfianca sobre o senhor Marx. Isso é em parte resultado por nao o ler (embora ninguém seja obrigado a ler coisa alguma) e muito em parte de muitos que falam dele (sem ter jamais passado a mao [por dentro] dos livros dele).

    Daniel, nao entendi a sua frase: “sem dúvida, a base de toda e qualquer política vem do grande gênio Karl Marx……”

    abracos materialistas – embora nao comunistas.

  8. (a primeira frase saiu com uns parenteses finais sem sentido algum)

  9. GRAMÁTICA É SÉRIO

    Era de costume, a professora pedagoga de formação parcelada, como boa profissional que era, sempre chegava mais cedo para escrever os recados da semana no quadro de avisos da sala dos professores. Apesar de serem recados úteis, ninguém os lia; um ou outro passava apenas os olhos e ria porque, quase sempre, estavam subscritos: à direção. Planejei usar, como desculpa, a crase mal empregada e dizer que o recado não era para mim, mas para a direção. Acho que os outros pensavam o mesmo. De tão cansada e desestimulada por não vê nada, do planejado, acontecendo, ela então foi ao extremo quando, numa segunda-feira, ao me aproximar para ler os anúncios daquela semana, deparei-me com um forte apelo, em letras garrafais, colocado na parte superior do quadro, bem destacado: “LEIÃO”. Foi em um instante, enquanto fui ao bebedouro dos alunos tomar um copo d’água, que quando retornei, logo aquele quadro de avisos chamou-me a atenção novamente, agora com mais força. Um colega havia interpretado o então atrevido apelo, com uma boa pitada de humor, usando uma conjugação verbal um tanto estranha: “Se não puder leiar então leiam”. Disseram-me que a frase foi arte do professor Joaquim. Eu já tinha visto a conjugação do verbo Xerocar e, mais artisticamente, eu Tvjo que significa: ver televisão na primeira pessoa do presente do indicativo, mas naquele momento, tive que refletir um pouco mais sobre aquela locução verbal numa espécie de futuro do subjuntivo: “Se não puder leiar…”! Porém, para chegar alguma conclusão, precisei pensar em outra direção, não gramaticalmente. Questionei, para mim mesmo, a qualidade da formação acadêmica do profissional da educação, ou melhor, questionei minha qualidade profissional. Ao sair da sala dos professores, perguntei ao professor coordenador de turno Joaquim: Por que um bom número de profissionais da educação pública mantém seus filhos nas escolas particulares? Você não acha incoerente? Eu queria saber se esse comportamento tinha a ver com a qualidade de ensino público.

    — Eu colocaria minha filha para estudar numa escola pública sem receio algum! E você Rapelle?— pergunta ele para a coordenadora pedagógica daquele turno, na busca de apoio.

    — Meus filhos estudam em uma escola municipal e minha conclusão final é: não existe escola ruim e/ou professor ruim, mas, aluno ruim.

    Então me perguntei novamente: E o que é aluno ruim? Fui resmungando até a sala em que eu ia ministrar minha primeira aula daquela noite. Era uma turma de 8a série que tinha aluno cujo seu próprio nome não sabia escrever corretamente. Nessa turma, propus-me, com a ajuda da coordenadora pedagógica, ensinar os tipos de redação; no final do mês, então, pedi um texto dissertativo para somar nota àquele primeiro bimestre. Investi muito esforço e paciência para corrigir, folha por folha, os textos que me entregaram.

    No dia seguinte, ao devolvê-los corrigidos para que eles tomassem consciência das deficiências textuais, fui coroado com um abaixo assinado, contendo muitas assinaturas, reprovando-me como professor deles. Pelas conversas informais no pátio e pelas confidências até pensava que tinha alguns bons estudantes, ali! Fui traído!

    Passaram-se os dias; não pude me esquecer daquele dia, no qual, bem intencionado, havia decidido ensiná-los melhor, motivado pela reflexão feita sobre os erros ortográficos da professora responsável pelos os anúncios para os professores. E então, me perguntei quem era o ruim: eu, ou a escola, ou o aluno?

    Hoje depois de seis meses, retornei àquela escola para rever os amigos que ali deixei. O quadro de funcionários já não é o mesmo, mas o professor Joaquim continua lá com o mesmo espírito de humor, agora está lecionando matemática, contudo me contou um fato interessante, pareceu-me que ainda se lembrava da teoria de Rapelle: “… ruim é o aluno”.

    — Professor, tenho uma novidade para lhe contar, — disse ele entusiasmado — este ano vieram duas moças bonitas do colégio vizinho, ambas as moças acabaram de concluir o terceiro ano do Ensino Médio, magistério, foram colegas na mesma sala: uma veio para assistir aulas na 8a série porque se sentia fraca; a outra veio lecionar matemática para a mesma 8a série porque se achava muito forte.

    Não me convenceu. Ele, no final, se contradisse sem sentir. Já na saída, depois de termos cruzado com um senhor distinto.

    — Você viu esse senhor educado que passou aqui agora por nós! — disse Joaquim — É o pai da jovem professora de matemática da 8a série, minha colega. Ele é um político muito influente na cidade e consegue muitas coisas para nossa escola!

    Lamento pela evidente conclusão que o alfabetizado é escravo e o analfabeto é misirável e o semianalfabeto tolo.

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