Opinião sobre censura ao Ponto de Vista

Por Felipe Prestes

Hesitei algum tempo em comentar o caso de censura determinada pela Justiça ao blog Ponto de Vista, do professor de jornalismo, Wladimir Ungaretti – de quem fui aluno na Ufrgs. Primeiro porque, embora não concordando com todas suas opiniões nem gostando de todas suas aulas, tenho forte admiração pelo mestre. Segundo, porque tive bastante contato com o Ungaretti fora de sala de aula e o considero, até mesmo, um amigo. Terceiro, porque o fato foi comentado em mais de 20 blogs e eu não quis repetir muita coisa, nem comentar no calor do momento, digamos.

Mas vamos lá.

O fato é que o professor mantinha reiteradas críticas, quase que diárias ao trabalho do fotógrafo, Ronaldo Bernardi, de Zero Hora – a quem se referia pelo apelido de “Fotonaldo”. Em síntese, Ungaretti mostrava evidências de que o profissional produzia fotos criticáveis eticamente, utilizando expedientes como acompanhar ações da polícia, combinando previamente com este órgão, ou utilizar-se de “campana” para conseguir fotos. O professor mostrou ainda que as fotos de Bernardi raramente eram consentidas pelos retratados. Para “Fotonaldo”, os porto-alegrenses não possuíam rosto.

Para minha surpresa – nem tanto assim – Ronaldo Bernardi não processa Ungaretti por calúnia, processo no qual o professor teria que provar que suas acusações procedem. A motivação do processo é o uso do apelido “Fotonaldo”. Dado este fato, me parece claro que Bernardi referenda as críticas de Ungaretti como verdadeiras. Qual acusado injustamente de conduta anti-ética em sua profissão não intimaria o acusador a provar isso em juízo? É, no mínimo, estranho.

Porque não fico tão surpreso? Contarei aos leitores uma curta história.

Corria o ano de 2007, caminhava eu nas imediações do campus da Ufrgs, no Centro. Dois policiais conversam com um fotógrafo – não sei se era Bernardi, não conheço seu rosto. Entro na universidade. Cerca de meia hora depois passo embaixo do viaduto, da João Pessoa sobre a Perimetral. Os policiais colocam moradores de rua na parede e os revistam, enquanto o fotógrafo tira fotos, tranquilamente. No outro dia, estão estampadas em Zero Hora.

Como eu, deve haver muitas testemunhas. Talvez por isso, Bernardi tenha utilizado o subterfúgio do apelido para tirar o conteúdo do ar.

***

O caso do Ponto de Vista não é isolado. A censura a blogs tem ocorrido com frequência no Brasil, muitas vezes por jornalistas, como Bernardi. Trata-se de um tiro no pé. O criticado pensa que como os blogs são veículos ainda incipientes, vai cortar o mal pela raiz. Ledo engano. A notícia se espalha como rastilho de pólvora pela blogosfera, dando muito mais notoriedade às críticas, e ainda queimando o filme do que busca a censura, pela tentativa torpe de calar a liberdade de expressão.

Neste post, o blog Jornalismo B enumera diversos links que repercutem casos de censura, ou tentativas, recentes.

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