Feira de São de Joaquim

(Foto: Anami Brito - aspirasdojornalismo.blogspot.com)

(Foto: Anami Brito - aspirasdojornalismo.blogspot.com)

Por Felipe Prestes

Nem as boas fotos que achei na internet nem as palavras que me vêm à cabeça são capazes de explicar o que é a Feira de São Joaquim, em Salvador. E lamento muito não ter levado câmera para lá, mas também hoje poderia estar lamentando o roubo de uma câmera. Não foi por isso que não consegui levar, até por que o jornalista precisa correr esse tipo de risco, ou mudar de profissão.

Mas o assunto aqui é a Feira. É um ponto turístico da capital baiana, diz-se. Mas de turista mesmo só vi uma europeia com uma câmera fotográfica gigantesca. Aliás na feira movimentadíssima, se haviam mais que dez pessoas brancas era muito. Localizada na marginalizada e retratada em filme, Cidade Baixa, a feira é mais um ponto de comércio extremamente popular.

– É lá que se encontram os personagens de Jorge Amado – disse meu tio Sérgio, citado no último texto sobre Salvador, quando soube que estive na feira. – Quincas Berro D’Água, prostitutas, estivadores, estão lá – completou ele.

(Foto: jornal "A Tarde", Salvador-BA)

(Foto: jornal "A Tarde", Salvador-BA)

O mercado fica à beira-mar, mas de costas para a Baia de Todos os Santos. O movimento na grande avenida em frente a ele já é intenso. Nos tabuleiros das baianas e baianos aqui tem frutas e verduras, muitos expostos em panos no chão. Passeiam pra lá e pra cá, carrinhos de mão com produtos como farinha, e mulheres carregam mercadorias na cabeça. Parece estereótipo, mas não é.

Logo na entrada, um rapaz me aborda e me oferece cartelas de comprimido.

– É estimulante sexual – explica.

Reitero que ainda não preciso utilizar este expediente e sigo caminho. O que se vê é uma muvuca, um labirinto de chão batido escuro por que os telhados das barracas tiram a luminosidade. Uma sorte de verduras são expostas aos clientes e ao moscaredo no corredor que é o mais bonitinho da feira. Galinhas, galinhas d’angola e patos em gaiolas certamente não procuram comprador. Um senhor velho, mulato e magro, de chapéu está certo de que quero comprar uma galinha.

– Muito obrigado – repito, enquanto ele insiste na oferta.

Lojas especializadas em candomblé vendem tudo aquilo que se vê em Porto Alegre e mais muitos tipos de plantas e ervas. A cura de tudo que é mau-olhado me é garantida por um vendedor. Chegamos ao fim do corredor. Ao lado direito se enxerga por um vão o pequeno porto por onde chegam barquinhos de madeira trazendo iguarias do Recôncavo Baiano e frutos do mar. Uma cachorrada se avança em tudo que é esquecido ou jogado por ali.

Para o lado esquerdo segue-se o labirinto. As vielas ficam mais estreitas, escuras e fétidas. Parece que a nossa presença – minha e de minha digníssima – se torna cada vez mais estranha. Alguns botecos servem cerveja e pratos tipicamente baianos como o sarapatéu, além de lanches. O pessoal gosta bastante de uma prosa e na verdade se vê mais feirantes conversando, do que clientes em muitas das vielas.

(Foto: Marcelo Matsuki - Folha de SP)

(Foto: Marcelo Matsuki - Folha de SP)

Um açougue nada ortodoxo, se resume a dois bifes de carne que repousam num balcão, enquanto três peças de carne ficam penduradas ao relento, ao calor e às moscas. O dono do açougue dorme tranquilamente. Uma tia minha que trabalha na Prefeitura de Salvador disse, após minha ida, que pretendem melhorar a higiene do local para que possa ser realmente um ponto turístico.

De minha parte, pouco importa, embora não tenha me animado a provar nenhuma especiaria foi um belo lugar para se conhecer. Deve haver muita história por ali.

Na saída uma galinha, doente, já meio depenada, esquecida num canto, se arrasta na tentativa de sobreviver. E eu vou-me embora – na certeza de não conseguir qualquer relato fiel – gostando e não gostando do que vi.

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10 Respostas para “Feira de São de Joaquim

  1. Olá Felipe. De forma alguma ficaria irritada por vc copiar a minha foto da Feira aqui no blog, pelo contrário fico muito feliz com isso.
    Vou aproveitar o espaço para falar sobre o que achei da matéria. Ao meu ver vc teve o intuito de descrever fielmente as suas impressões ao estar na Feira, e vc teve uma visão bem diferente da que tive em minha visita. Concordo com a maioria dos relatos que vc colocou na matéria, mas acho que vc esqueceu de falar sobre uma determinada beleza que existe lá. O colorido, o bom humor de vários comerciantes em receber a qualquer um assim como a luta diária de comerciantes que estão ali há anos enfrentando dificuldades e que já viveram bons momentos.
    Tudo depende do ponto de vista. Espero que volte até lá e agora com máquina…rs…para que tenha o prazer em fotografar cada detalhe daquele ambiente tão rico. Abraços!

  2. “Logo na entrada, um rapaz me aborda e me oferece cartelas de comprimido.

    – É estimulante sexual – explica.

    Reitero que ainda não preciso utilizar este expediente e sigo caminho.”

    Sensacional esse trecho.

  3. Também estive na feira – por sinal, achei bem apropriado o tratamento que recebi no texto – e minhas impressões foram parecidas. Não chamaria as peculiaridades do local de belas. Ainda assim, saí de lá com aquela sensação que temos ao ver algo muito bonito. É que o estranhamento que a beleza causa é o mesmo que os maiores horrores nos fazem sentir – já dizia alguém, não lembro quem. Assim foi a minha experiência na Feira de São Joaquim. Era tudo muito diferente e novo. Fiquei tão impressionada, que não encontrava palavras que me ajudassem a entender o que eu mesma pensava a respeito. Não gostei, mas gostei.

    Quando cheguei em casa, procurei mais informações:
    http://revistas.unifacs.br/index.php/sepa/article/view/20/15

  4. Cara Anami, obrigado pela visita, pela foto e pelos comentários.

    Em verdade, adorei ter conhecido o lugar, achei um local riquíssimo e até escrevi “foi um belo lugar para se conhecer. Deve haver muita história por ali”.

    Escrevi “deve haver muita história”, por que não pude conhecer bem as histórias do lugar já que fiquei apenas 4 dias em Salvador nesta minha última estada por lá. Procurei relatar o que vi. É um lugar que certamente rende um aprofundamento maior, conhecer os personagens e as histórias.

    Um abraço e volte sempre!

  5. Vicente, também gostei desse trecho, hasauhauhauhauhuha

  6. Digníssima, obrigado por sua contribuição e referências teóricas! Beijin

  7. Meus velhos estiveram lá e me trouxeram um defumador “hei de vencer”. Que Ogum sete ondas quebre as forças maléficas que por ventura existam neste blog.

  8. sauhdhdusaahsduhuasd

    Venceremos!

    Certa feita, trouxe um incenso “Pega Mulher” lá do Bomfim para um parceiro meu.

    O cara disse que funcionou pra cacete, husushuhsduhsuh

  9. GOSTEI MUITO DAS FOTOS DESSE SITE PEGUEI UMA PARA MIM BJS PAR TODOS OS COMPONEMTES DESSE SITE BJSSS

  10. Morei 10 anos em Salvador e um dos lugares que mais me horrorizaram na cidade foi a feira de São Joaquim. A 1a vez que fui lá, ao saltar do carro, o flanelinha falou para eu retirar e esconder todos os tipos de jóias que eu poderia estar exibindo se eu ainda quisesse voltar com eles para casa (que era um cordãozinho fino de prata com uma figuinha bem pequena e um brinco pendurado estilo hippie). Ainda acrescentou: “Quem avisa amigo é”. Nunca esqueci dessa recepção mega empolgadora. E o pior.. nos meus primeiros passos encontrei um rapaz carregando um carrinho de mão com uma cabra dentro, com a cabeça pendurada, toda ensanguentada e se debatendo, como se tivesse em choque hipovolêmico. E qnd questionei, me informaram que isso era normal por ali. Inclusive essa cena da galinha depenada, vi de montão. Fora a sujeira, imundice em local de venda de alimentos.. Cadê a vigilância sanitária?? E a proteção animal?? Crianças passando e vendo aquilo, tendo uma imagem de exemplo daquilo, já que convivem naquele meio. Fiquei horrorizada e tento divulgar isso às autoridades para tentarem intervir nessas atitudes de intensa monstruosidade. Ainda mais sendo considerado um ponto turístico da cidade, né?? Não estou fazendo críticas à religião que abraça aquela feira, até pq frequento a umbanda, mas não concordo com a utilização de animais, ou seja o SACRIFÍCIO DE ANIMAIS nem para fins religiosos nem para outros fins…

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