Motoboys: Vida Loca

motoboys_posterMedo e delírio sobre duas rodas, nos telefones, nas pizzarias, nos escritórios.

Por Nico Collares

Quando o amigo Prestes fez o convite para que eu escrevesse sobre cinema no Blog da Cidade disse que a pauta era livre. Fiquei paralisado diante das possibilidades infinitas da proposta e acabei resolvendo que essa coluna quinzenal terá algo como uma linha, um tema, enfim. Levando em consideração os assuntos do blog, tentarei tratar de filmes que tenham alguma relação com a cidade, as cidades e as coisas urbanas. Esses dias, o mesmo Prestes escreveu aqui uma reflexão sobre a relação das pessoas com o trânsito em Porto Alegre. A correria pós-moderna que ultrapassa as faixas de segurança sem olhar para os lados me fez lembrar um excelente documentário que vi chamado “Motoboys: Vida Loca” (2003). O filme, ambientado em São Paulo, trata de um problema que tem paralelo em todas as grandes cidades brasileiras. As desventuras desta que é a classe mais odiada, marginalizada e também mais representativa da vida contemporânea.

O diretor Caíto Ortiz acompanha com sua equipe o cotidiano de cinco motoboys e intercala entrevistas com autoridades, celebridades e motoristas, realizadas, em geral, dentro de carros presos no trânsito infernal de São Paulo. O filme mostra o que também se pode ver nas ruas de cidades como Porto Alegre: o ódio aos motoboys é esporte tão praticado quanto o futebol. É algo que as pessoas gostam de falar sobre. Um assunto recorrente em elevadores, bares e salas de espera que sempre vem acompanhado das mesmas histórias, sem que seja necessária muita reflexão: eles são loucos suicidas, se juntam como moscas quando há um acidente, batem nos nossos espelhos, não respeitam as leis e são folgados. Em geral, as histórias procedem e o filme também mostra isso ao não colocá-los em uma posição de marginais ingênuos ou indefesos. Há inclusive uma cena em que eles agridem um motorista. Os motoboys dão seus jeitos para se virarem. Na base da cotovelada vão abrindo seu pequeno espaço nas ruas e na sociedade.

Motoboys coloca o espectador na garupa da moto

Motoboys coloca o espectador na garupa da moto

Ao entrevistar motoristas trancados em engarrafamentos reclamando dos motoqueiros, o diretor mostra um olhar de fina ironia. Todos condenam o abuso dos que passam voando ao lado, mas na montagem do filme isso soa como pura inveja provocada pela inversão social e de poderes que o trânsito proporciona. Diante da ineficiência dos carros e da impotência de seus motoristas, quem faz a cidade andar são os motoboys. A câmera na carona dos carros é estática enquanto a que vai na garupa das motos fornece um travelling alucinado digno de filmes de perseguição. Essa inversão de poderes fica clara quando celebridades como Serginho Groisman contam histórias em que os motoboys foram heróis. Washington Olivetto, também os considera a salvação de muitos negócios, mas seu depoimento soa um pouco como se estivesse no camarote da Brahma, aplaudindo os pobres na avenida. A inversão social é uma coisa tipicamente brasileira que agrada aos publicitários. No entanto, ao elogiar a eficiência desses profissionais em situações de urgência e conceder poder a eles, mostra que, no fundo, é incentivador de toda essa loucura.

Este é apenas um dos aspectos mostrados que nos levam a entender melhor as motivações desses profissionais. O filme não chega a justificar a conduta imprudente de grande parte deles, porém dá elementos para a sua compreensão. Realmente parece difícil ser prudente, educado e equilibrado quando se trabalha sob pressão durante 16 horas por dia para receber em média 750 reais mensais.

Outro tema interessante que costura o filme é a paranóia urbana que se manifesta nos problemas psíquicos dos motoqueiros. A “vida loca” a que o título se refere está representada literalmente em muitas passagens. O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg é categórico em sua entrevista e afirma que todos os motoboys têm psicopatologias. Entre a necessidade de auto-afirmação diante da sociedade repressora e do mais radical ímpeto autodestrutivo, se manifestam os mais variados níveis de desequilíbrio.

Vida Loca retrata o cotidiano de 5 motoboys

Vida Loca retrata o cotidiano de 5 motoboys

Uma das personagens reais que o filme acompanha é uma mulher que, após perder um filho, tornou-se motogirl. Menos pela necessidade financeira do que para ocupar o dia em uma tarefa que lhe absorva completamente, ela corre sobre duas rodas e encontra nas ruas um refúgio de si mesma. Como outros motoboys do filme, ela tem uma espécie de sentimento autodestrutivo. Uma vontade de nada. De esquecer a existência e dedicar-se à aventura selvagem que é o transito para, em qualquer esquina, livrar-se também do corpo. Esse ímpeto autodestrutivo tem seu lugar (e valor) nessa sociedade guiada pelo capitalismo virtual, em que a progressiva virtualização das atividades humanas é sustentada por um embrutecimento da realidade das ruas. Podemos ter e fazer tudo a partir de telefones e computadores, mas sempre terá alguém lá fora, naquele lugar inóspito e cada vez mais abandonado chamado cidade, para nos trazer a encomenda no conforto das nossas cápsulas.

Cabe ao entendedor bem intencionado completar a equação e ver que, se os motoboys são loucos, é porque fazem parte de um sistema em que também somos atores. Não podemos nos julgar equilibrados ao ligar cinco vezes seguidas para a empresa de transporte e avisar que o documento precisa chegar em 5, 4, 3, 2, 1 minutos, respectivamente. Ou quando chamamos uma pizza numa noite de chuva e ficamos furiosos se ela demora mais, sem perceber que todo mundo teve a mesma idéia. É preciso ver um pouco além. Se o filme deixa algo a desejar, com certeza é mostrar com mais clareza que a “Vida Loca” não é só dos motoboys.

Motoboys: vida loca.

(Caíto Ortiz, BRA, 2003)

Para baixar:

>Emule

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> Torrent

http://rapidshare.com/files/46649264/Motoboys.rar

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6 Respostas para “Motoboys: Vida Loca

  1. Bah, brilhante, eu diria até, INOXIDÁVEL.

  2. Feito! Parabéns, Nico. Ótimo texto.

  3. muito bom. pelo q foi narrado, já dá pra sentir essa falta, Nico. Mas quer supri-la? Recomendo um conto do Cortázar, q acabo de ler. A autoestrada do sul, está no livro Todos os fogos o fogo. E fala dessa vida loca q NÓS TODOS vivemos. E olha q o livro é de 60 e poucos.

  4. Siiim! Muito clássico esse conto. Uma vez estava engarrafado e um amigo me recomendou. Bem lembrado. Valeu ae, pessoal.

  5. “Uma vez estava engarrafado e um amigo me recomendou.”

    Como este é um blog de RESPEITO, explique-se, Sr. Nico.

    Os senhores estavam no meio de um engarrafamento, ou tu estava DENTRO DA GARRAFA?

  6. acho que no transito deveria haver mais respeito e memoa correria assim evitariamos tantos acidentes!!

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