Uma Cidade Em Sua Plenitude

Por Felipe Prestes

Quatrocentos e sessenta anos de uma formação impetuosa de cidade, Salvador não dá sossego apresentando novas e velhas contradições a cada esquina. A cidade se expande ora tortuosamente em pequenas vielas de enormes favelas; ora de forma também selvagem, em enormes torres que se pretendem modernas.

As casas das favelas parecem ter ganhado um puxadinho a mais nos últimos, crescendo com a forma característica das construções do período colonial na capital baiana, bem mais compridas que largas. Talvez seja fruto das políticas sociais implantadas no País, e que olharam bastante para o Nordeste. Talvez.

O número de favelas, por sua vez, também aumenta e 73% da população economicamente ativa na cidade ganha até três salários mínimos. Os dados me foram fornecidos por Sérgio Nascimento, professor de geologia da UFBA, conhecido popularmente como meu tio. Enquanto isso, o mercado imobiliário vinha tendo um boom até a crise mundial, com o aparecimento ou crescimento de vários bairros de classe média alta não tradicionais.

E esse crescimento se deu de forma um tanto desordenada. Os novos edifícios são altíssimos e não possuem contato saudável com a rua – no primeiro andar ficam as garagens, e há muitas vezes grandes muros. A grande maioria das ruas se tornaram avenidas. Asfaltadas, com grande tráfego e em velocidade mais alta do que o interessante para bairros residenciais, pouco se vê faixas de pedestre. Esses bairros mais recentes não são nem um pouco animadores para se andar a pé.

Salvador preserva o cosmopolitismo daquela que foi a grande cidade brasileira do período colonial, da cidade que soube acolher diversos aspectos da cultura africana e de imigrações europeias e que hoje recebe turistas de todo o mundo. Isso, por outro lado, faz com que uma cidade que preserva em si e respira história, também compre modernidades sem muita reflexão. A capital baiana anda trancada, engarrafada. A constante urbanização é desordenada, como em geral ocorre no Brasil.

Segredos, mistérios

Eu queria mesmo era escrever algo mais poético para esta terra cantada por Caymmi, descrita por Jorge Amado. É que as encostas extremamente ingrimes que separam as partes altas das partes baixas da cidade têm muito a dizer sobre os segredos de Salvador.

Essa cidade que traz oscilações tão bruscas como a expressão “anarquistas, graças a deus”, cunhada por Zélia Gattai. Essa cidade que tem uma igreja para cada dia do ano e shopping centers, viadutos, altas torres para ninguém botar defeito. Do sorriso simpático da baiana que te recebe no Aeroporto, ao mau humor dos vendedores ambulantes debaixo do sol de rachar. Aquela intimidade de quem nem lhe conhece que pode ser para lhe acolher, quanto para lhe mandar tomar no cu.

Nos muros erguidos nas tantas encostas transbordam mosaicos, que convivem com a sujeira dos mesmo muros, jamais limpos. As generosas matas tropicais, as árvores com folhas e frutos generosos, convivem com o mau cheiro dos riachos, com um cheiro de mijo, com o lixo espalhado em terrenos desocupados. Cidade que produz o que há de melhor e de pior na música brasileira. Em que, ao contemplar os morros, pipocam favelas e prédios luxuosos.

E Salvador é uma cidade na plenitude daquilo que atrai as pessoas para viver nestes ambientes, carrega segredos, surpresas. Nunca se sabe quando se vai deparar com uma ladeira cheia de histórias de prostitutas, ou com um botequim com iguarias desconhecidas. Diz-se por aí que fulana é a melhor cozinheira. Há divergências. Pode-se ouvir uma jam session de jazz aos domingos, vendo o pôr-do-sol no mar, em um solar construído no século XVII. Pode-se ver a intelectualidade brotar das favelas, e o teatro, e a música popular.

O sol por lá nasce e se põe no mar. Por uma nesga entre os prédios, de repente lá está ele verdadeiramente azul. E dá frutos que não se acabam. E as iguarias e quitutes são muitos nessa terra. Sempre tem um novo doce para se experimentar. Feiras das mais sujas, às higienizadas para turistas. Estas são algumas facetas de Salvador. Outras tantas, ainda não conheci.

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2 Respostas para “Uma Cidade Em Sua Plenitude

  1. q bom se as cidades fossem assim mais diferentes. mas parece quererem deixá-las todas meio parecidas.

  2. Pingback: Feira de São de Joaquim « Da Cidade

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