Capitães-do-Mato

Por Felipe Prestes

Ontem, por volta das 19h, passava em frente à Vila Planetário, e vi uma cena que pode até ocorrer todos os dias em Porto Alegre. A Brigada Militar fazia um estardalhaço na vila. Com duas viaturas e algumas motos, alguns policiais aparentemente colocaram todo e qualquer jovem morador do sexo masculino sentados, encostados em um paredão.

Grande parte dos cidadãos saiu de suas casas pra ver os rapazes em posição vexaminosa. Durante os cerca de 10 minutos em que permaneci observando, a situação era a mesma: os policiais mantinham os guris em uma espécie de linchamento moral. Aproximo-me de um velho morador e pergunto o que a PM faz ali.

– Eles querem mercadoria – responde, desconfiado com meu questionamento.

Ao lado dele, um adulto brinca com uma criança.

– Eles tão atrás de ti – diz afagando a cabeça do guri.

Um adolescente de cerca de quinze anos sai de uma casa com uma mochila e vai em direção ao acontecido.

– Não vai por ali, eles vão te botar na parede junto e tu vai perder a aula. – diz a mãe atormentada.

– Eu quero ir lá ver – diz o garoto sorrindo.

Na presença da polícia militar em vilas e favelas, os moradores agem com um misto de medo e naturalidade. Não foi a primeira nem será a última vez que aquelas famílias viram ou verão seus filhos em situação humilhante.

Os policiais militares são os capitães-do-mato do Brasil contemporâneo. Oriundos de classes mais baixas, vivem a oprimir os seus. Possuem fidelidade canina à classe dominante, seja no campo ou na cidade. Os rapazes na parede por acaso estavam sendo protegidos pela polícia?

As favelas são como os guetos, como os quilombos. A maioria esmagadora dos moradores da Vila Planetário é negra. Incursões como a que relatei são mero exercício de opressão. Se algo de tão grave ocorreu, bastaria investigar e chegar ao culpado.

Mas as polícias militares não veem qualquer obstáculo em humilhar gente humilde. São as instituições que mais envergonham o Brasil.

Tentei tirar fotos, mas, meio apavorado, querendo esconder a câmera e bater muito rápido, o resultado foi tosco. Mesmo assim fica o registro.

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6 Respostas para “Capitães-do-Mato

  1. Everton Tormann

    Comum atualmente, este tipo de atitude desrespeitosa com os segmentos populares ou excluidos socialmente…Não estou mais residindo em POA e nas poucas vezes que fui visita-la, presenciei em dois dias, nos pilares do viaduto Princesa Isabel e na Praça do Rosário, uma verdadeira truculência de “limpeza” policial sobre mendigos, que foram humilhados e escorraçados, sob o olhar e calar das pessoas que ali passavam…parece que grande parte consentiam com esta face da cidade e das politicas “sociais” do municipio e do estado.

  2. A polícia militar do RS é a mesma que se colocou contra a população de Viamão para defender um pedágio.

    É a mesma que agride manifestantes para defender empresas de ônibus.

    São fatos que demonstram sobre maneira a quem serve a polícia.

  3. É bem essa a “política social”, Éverton. Muito bem colocado.

    Imagine só na Copa do Mundo. Vão tentar dar um “sumiço” nos mendigos.

  4. Com uma polícia assim, a frase que é “categoria” do post diz tudo: “Chame o ladrão!”.
    Esses tempos, pegaram um cara que entrou numa casa abandonada, na frente do meu prédio. Fizeram o cara ficar ajoelhado com as mãos na cabeça por uns 20 minutos, na calçada. Ouvi dizerem que é procedimento padrão da polícia, para evitar que o suspeito fuja enquanto se assina o B. O., mas aquele tempo todo foi um exagero, sem dúvida alguma. Pura humilhação.

  5. Se não fosse dois pesos e duas medidas até vá lá. O problema é que o procedimento padrão só vale pra uns.

  6. NeeltPem-online

    bom comeco

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