Sobre conservadorismo e modernidade

Por Felipe Prestes

Chama atenção que a pauta mais recorrente entre movimentos de esquerda em Porto Alegre tem sido de viés ambiental. É hoje, sem dúvida nenhuma, o tema que mais tem levado militantes às ruas da capital gaúcha. Tudo graças às proposições feitas pela construção civil com apoio de alguns grandes meios de comunicação e setores do Legislativo e do Executivo.

A direita tem projetos para a cidade que vão no sentido de piorar a qualidade de vida, que deterioram o meio-ambiente e que aumentam a exclusão social. Agem bem os movimentos contrários a estes empreendimentos? Com certeza. Mas percebam que a esquerda tem atuado em reação à elite porto-alegrense. A esquerda só tem conseguido se aglutinar em torno da manutenção das coisas como estão no que diz respeito ao espaço urbano.

Para serem identificados pela população como grupo político capaz de produzir as mudanças que levem a uma igualdade, a uma inclusão social é preciso bem mais que isso. É preciso estabelecer proposições para a cidade, é preciso ter projetos para a cidade. Se já existem projetos, é preciso que se vá para rua para mostrá-los, ou seja, mostrar que se quer modernizar Porto Alegre, não aparecer apenas quando se adota uma postura conservadora. O que estamos querendo para o futuro da cidade? Como está agrada? Precisamos refletir sobre isso.

Ser contra as grandes construções é pouco, muito pouco. Construir parques, mais parques, em Porto Alegre também é pouco. Tem que se pensar, sim, em gerar emprego e renda. Tem que se olhar mais para as favelas que só fazem aumentar na cidade. Quais são os planos para uma cidade mais inclusiva? Lhes digo que se existem, estes planos andam ofuscados.

E antes que me perguntem: “qual é tua ideia então?”, digo que a intenção é justamente chegar a estas ideias, para que a esquerda possa pautar o debate político. Hoje, quem pauta o debate é a parcela da elite já citada. Quem tem projetos claríssimos, inclusive com uma excelente forma de conseguir a apreciação popular devido à Copa do Mundo, é este grupo.

Para ser vanguarda é necessário propor, sair na frente. E aí deixar que eles reajam.

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3 Respostas para “Sobre conservadorismo e modernidade

  1. Realmente, a questão ambiental tem sido a única pauta capaz de unificar as esquerdas em suas manifestações aqui em Porto Alegre. Algo semelhante está começando a ocorrer no plano estadual, com o “Fora Yeda”.

    Eu concordo plenamente contigo quando falas em falta de proposições, isso me incomoda bastante também… mas o que acontece é que se faz necessário gastar muita energia e recursos simplesmente para chamar a atenção da população sobre a questão do Pontal e tentar barrar os intentos dos vereadores pontaleiros; assim, me parece difícil propor algo diferente, tendo em vista que toda a mobilização acaba sendo (como tu mesmo disse) uma reação às proposições antipopulares da nossa elite.

    Acrescente isso ao fato de que a elite possui muito mais dinheiro para colocar gente a trabalhar por sua causa… desenvolver projetos e apresentá-los ao povo com toda a pompa midiática… Enquanto os ambientalistas e movimentos sociais têm que conscientizar a população distribuindo panfletos xerocados (quase sempre tendo que tirar do próprio bolso os custos de impressão/reprodução dos materiais), o empreendedor do Pontal tem um escritório de ASSESSORIA DE IMPRENSA coordenando todas as suas ações de comunicação.

    E isso sem contar com o apoio do panfleto da Azenha, como já era de se esperar.

  2. Claro que as dificuldades são muitas. O que me incomoda é a gente orbitar em torno das ações da direita.

    Por exemplo, quando se aumenta as passagens tá todo mundo na rua. Ninguém vai pra rua buscar apoio para apresentar uma nova proposta para transporte público em Porto Alegre. Óbvio que é bem mais difícil fazer isso. Mas cerébro é um dos poucos recursos que temos em igualdade.

    No campo, por exemplo, o MST já age diferente. Não fica esperando que se crie uma lei que o desagrade para agir. Tem propostas claras, reforma agrária, um modelo de agricultura a ser seguido. Aí com suas ações ele pauta o debate, mesmo com todas as dificuldades.

    Outro exemplo é quando nos limitamos a comentar e criticar o jornalismo da RBS e não produzimos conteúdo jornalístico próprio. Tu tens o mundo. A RBS, a Folha, a Veja, etc. escolhem o que do mundo existe, ou interessa, é fato, enfim.

    É preciso que se faça sua própria apreensão do mundo, não se pode ficar restrito a debater o que essas empresas acham que é o mundo, ou que interessa no mundo. Aí tu tá aceitando que aquelas são as coisas mais importantes a se discutir no mundo. E não são. Na maioria das vezes, não são.

  3. concordo, prestes, mto.
    a pensar sobre

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