Che: uma adaptação fiel demais

Por Júlia Dantas

 

Filmes que contam a vida de uma pessoa real costumam ter algumas particularidades em comum: uma narrativa que utiliza momentos históricos como base de sustentação e marcos da passagem do tempo, a representação de vários anos da vida do biografado e um pouco de ficção para preencher os espaços que a pesquisa histórica não consegue desvendar.

 

Che, a visão de Steven Soderbergh sobre o guerrilheiro da revolução cubana, deixa de fora a última destas peculiaridades e se esforça em manter afastado todo e qualquer toque de ficção. Para mim, é nesse ponto que ele perde a chance de se tornar um épico para se transformar em um documento burocrático.

 

Quando vemos Benicio Del Toro, que está visualmente impecável como Che Guevara, parece que está faltando alguma coisa. A atuação de Benicio parece feita de restrições, de movimentos contidos.

 

Lendo sobre a preparação de Benicio para viver o “comandante”, descobri que ele se baseou no diário que o próprio escrevia e em descrições de pessoas que conviveram com ele. O ator decidiu por se manter absolutamente fiel ao que encontrou, sem acrescentar nada de sua própria cabeça. E isso ele o faz perfeitamente. Che é um filme fiel. Mas nisso que se pretendia ser seu maior mérito esconde-se a sua fraqueza. Che parece incompleto. Sente-se falta daquele tecido de ficção que serve para conectar os fatos. Benicio incorporou tudo que se pode saber sobre Che Guevara: a narrativa é o que está em seus diários, a maneira como ele se porta, caminha, segura o cigarro, tudo que foi significativo o bastante para ser registrado ou para que alguém lembrasse está no filme.

 

Mas e o resto? As pequenas coisas que ninguém lembra, que ninguém deu bola? Benicio não quis inventá-las e o resultado é um Che Guevara que não tem gestos casuais, nunca baixa a guarda, não sorri, não passa a mão no cabelo, não ajeita a camisa fora do lugar: se não está nos diários, se não é contado pelos companheiros de guerrilha, não está no filme. Por isso que assistir a Che é um pouco como ler os livros de história. É calculado, duro, distante. Benicio cumpre o papel de representar o guerrilheiro, mas não consegue nos mostrar o homem. É um filme correto em que absolutamente nada do que está na tela pode ser criticado, mas senti falta do que ficou de fora.

 

Che estreia oficialmente este mês.

 

Obs: A partir de agora, teremos, uma vez por semana, resenhas de filmes, escolhidos a bel-prazer por nossos colunistas, Júlia Dantas e Nico Collares. Adoraria que o português tivesse uma expressão como “enjoy it”!

 

Abraços, Felipe Prestes

 

 

 

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Uma resposta para “Che: uma adaptação fiel demais

  1. Pois é… acho que realmente no que ficou faltando tá seu defeito. Não por falta de ficção, por falta de coisas que ninguém sabe. Acho que a parte da realidade que Soderbergh deixa de fora compromete muito o tom documental do filme.

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