Falta Respeito

Foi preciso construir uma sinaleira de pedestres. A antiga faixa era quase inútil. (Felipe Prestes/Dacidade)

Foi preciso construir uma sinaleira de pedestres. A antiga faixa era quase inútil. (Felipe Prestes/Dacidade)

Por Felipe Prestes


Se existe uma prova cabal de que a falta de educação em Porto Alegre não vê classe social, esta se chama faixa de pedestre. Raiva ou perplexidade são as reações mais comuns dos motoristas quando um corajoso caminhante se aventura a passar em uma faixa desacompanhada de semáforo.

“Quando não há sinal, ninguém para na faixa. É falta de compreensão e falta de respeito”, diz Ari Bueno de Oliveira. “A pessoa motorizada acha que está com o mundo sob seus pés”, analisa. Caminhoneiro da Fonte Ijuí, transporta água mineral de Nova Santa Rita aos supermercados de Porto Alegre e garante que para em qualquer esquina para alguém atravessar. “Eu moro na colônia, se a pessoa estiver precisando dou até carona”. Saudoso, completa: “Eu queria que a gente voltasse aos tempos da carona”. Sobre a pressa dos que estão de carro, sentencia: “Estão todos correndo atrás do prejuízo”.

Ari garante que para sempre, e é saudoso dos tempos da carona. (Felipe Prestes/Dacidade)

Ari garante que para sempre, e é saudoso dos tempos da carona. (Felipe Prestes/Dacidade)

Falou bonito, o Ari. Mas talvez as entrevistas que não consegui expliquem mais que muitas palavras. No horário de almoço, no estacionamento de um supermercado em frente à Praça da Encol, abordei, em momentos diferentes, três pessoas que quase deram de ombros, desconfiadas. Quando expliquei que queria entrevistá-las, a resposta foi a mesma. Sem parar de caminhar repetiam: “To com muita pressa”. Também com muita pressa porque tinha que pegar os filhos na escola, Gabriel Prolla respondeu meu questionamento enquanto colocava compras no porta-malas do carro. “Falta educação. E tem que doer no bolso”, opinou.

Não à toa, em frente ao super, na Avenida Nilópolis, foi construído um semáforo de pedestres no ano passado. A faixa de pedestre existente ali outrora, raramente fora respeitada. E muitas vezes, quando um motorista parava, havia o risco de o vivente atravessar a rua e se deparar com uma moto escondida. Buzinas dos carros de trás certamente choveriam.

Nas avenidas de grande movimento e de maior velocidade esta é a realidade: as faixas de pedestre não são mais que adornos. Caminhe até a sinaleira mais próxima, que muitas vezes alteram significativamente o trajeto do cidadão, ou arrisque a sua vida. De cabeça, posso citar facilmente dois pontos da cidade. Na Silva Só, logo após a descida do viaduto sobre a Protásio Alves há uma faixa. É certamente uma das mais ignoradas da cidade, por que os carros descem tão chutados que no pardal ali localizado diminuem(!) para 60 km/h. Pessoas arriscam a vida ali diariamente. Ir até o sinal mais próximo, atravessar e voltar ao ponto que estava, demora cerca de cinco, seis minutos.

Na Avenida Edvaldo Pereira Paiva – a famosa Beira-Rio – a situação é pior. Em dias comuns, os automóveis andam a tal velocidade que só um atleta de alta performance é capaz de atravessar a via. E não há qualquer sinaleira da Avenida Ipiranga até o fim da Beira-Rio, já no Bairro Cristal. É quase um convite para que o cidadão que está no Parque Marinha não vá até a beira do Guaíba.

“Falta cultura”, diz a jovem Luiza Schmitt, que saía de uma garagem dirigindo e parou pra falar comigo rapidamente. De fato, é muito difícil que os novos motoristas hoje consigam implementar um novo jeito de dirigir. “Quando tem uma faixa e não tem sinal, tenho medo de parar por que os caras detrás podem bater em mim”, resume.

Lia evidencia a importância da reeducação dos motoristas. (Felipe Prestes/Da Cidade)

Lia evidencia a importância da reeducação dos motoristas. (Felipe Prestes/Da Cidade)

Entretanto, a questão é mais importante do que se imagina. Para idosos como Lia Moreira, de 78 anos, é essencial a faixa de pedestre. “Eu as minhas amigas sofremos com isso. Já não temos mais idade para dirigir e andamos muito a pé”. Ela traça retratos tristes do egoísmo dos porto-alegrenses. “Quando eles veem que eu quero atravessar, aceleram. Às vezes tenho que fazer sinal com a mão para eles pararem”. Lia ainda faz um alerta. “Dizem que o Jardim Europa (“bairro” que está sendo construído próximo ao shopping Iguatemi) terá 6500 carros. Para ir ao Centro, todos passarão aqui pela Nilópolis. Imagina só”.

Existem outros fatores neste tema e voltarei a tocar nele, para relatá-los. Algumas vezes, por exemplo, o motorista não dá o pisca para avisar pedestres. Um perigo. Outro problema que me intriga é: não poderiam os motoristas de ônibus serem orientados a dar o exemplo? Falarei com a Prefeitura e volto a escrever.

A reportagem que trago aqui é uma mudança necessária de mentalidade, mas que tem que ser construída na prática. Não basta escrever um comentário aqui embaixo lamentando e, na saída do trabalho, xingar pedestres, ou buzinar atrás de um educado motorista. Mãos à obra.

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16 Respostas para “Falta Respeito

  1. Bom, eu falarei com a propriedade de quem é motorista nesta cidade há sete anos, pedestre há 26 e morador da região da Nilópolis há dez.

    O que a Luiza falou procede absolutamente. Eu acho absurdamente lamentável que hoje em dia o motorista tenha que ignorar a faixa de pedestres em alguns casos, mas é verdade. Muitas vezes, não há saída: ou tu para para os pedestres passar e corre o risco de sofrer um acidente de quem vem de trás muito rápido ou simplesmente tu é xingado até a quinta geração da tua família por ter parado. Tu é bundão, frouxo, fresco, palerma. Já passei por algo assim na saída de um jogo do Grêmio ano passado.

    Passei algumas semanas na praia e, felizmente, lá alguns carros ainda param para os pedestres passarem. Puxa, eu acho um prazer parar o carro e receber o agradecimento de um pedestre, apesar de ser minha obrigação. Pena que muitos não pensem assim.

    Essa sinaleira da Nilópolis realmente facilitou muito as coisas pra quem mora ali. Atravessar a avenida antes era tarefa pra atleta profissional mesmo, dado o fluxo contínuo de carros que por ali passa.

    Por último, acho que estes motoristas que não te atenderam talvez estivessem com medo de assalto (apesar de tu ser bem apessoado, hehe). Infelizmente isso acontece, e eu não os condeno por isso. Eu mesmo não me arrisco às vezes.

    Excelente matéria, Prestes. E perdão pelo comentário alongado, mas é que tu falou aqui tudo o que eu um dia queria falar pra desabafar. É muita falta de educação no trânsito mesmo.

  2. Tens abordado problemas crônicos da cidade neste blog. Mas esse da faixa de segurança é especialmente difícil de se mudar. A fiscalização punitiva é quase impossível, e a conscientização cultural de parar na faixa inexiste. Boa matéria.

  3. Brigado, velho. Eu também queria falar isso há um tempão. Até por que não sou motorista, sofro um bocado, uhsdsuhdsuhduhuhuh

    E tchê, nem é só o problema de o cara ser xingado, é capaz de o pedestre acabar sendo atropelado por outro veículo, então acaba sendo até meio inútil parar. Mesmo assim, acho que vale a pena dar o exemplo se possível. Nem sempre é.

    Também não condeno as pessoas por talvez terem tido medo de assalto, apesar de que as abordei quando estavam fora do carro. E isso também está interligado com a questão do trânsito e é também um retrato triste da cidade. Pessoas exageradamente desconfiadas.

    Tu vê só: eu tinha achado os bonairenses mal-educados por se assustarem quando eu pedia informação. Nem percebia que também poderíamos ser aos olhos dos outros.

    Como podes perceber, comentários longos são LEI por aqui, ussuhadashdhsuuhuh

  4. Brigado também, Lourenço.

  5. Acho que a única solução é que os motoristas jovens deem um peitaço nos velhos hábitos.

  6. Ah sim. Muitas vezes, quando pedestre, vejo um motorista de uma faixa parando para eu passar, enquanto os da outra simplesmente ignoram a gentileza e passam por cima, correndo o risco de atropelamento.

    E é foda mesmo, mas ser desconfiado aqui meio que virou uma lei de sobrevivência. Mesmo que eu não sofra do pânico que muitos sofrem ao andar na rua, todo cuidado é pouco e o seguro morreu de velho.

  7. É, complicado. O problema é a desconfiança excessiva. E quanto menos tu te anima a sair na rua, a ter contato com pessoas de todas as classes sociais, mais desconfiado tu fica, é uma bola de neve.

    Uma coisa que esqueci de apontar na reportagem foi que os sinais para pedestre demoram horas para abrir e fecham tão rápido que pessoas idosas têm até dificuldade em atravessar neste curto tempo.

  8. Ontem mesmo, enquanto eu atravessava a faixa de pedestres, os passageiros de um carro que pegava a direita na Venâncio para entrar na João Pessoa ficaram tão putos porque tiveram que esperar que eu passasse que uma garota colocou a cabeça pra fora e gritou:
    – Desfila!
    Essa falta de paciência e respeito dos motoristas em relação aos transeuntes assusta quem vem do exterior. Chega a colocar vidas em risco, se for um turista desavisado. Eu não conheço motoristas tão mal educados quanto os brasileiros.

  9. Uma coisa que percebi foi que quando o asfalto de várias partes da cidade foi trocado, simplesmentes as faixas sumiram. Ficaram uns bons meses com a pista limpa. mesmo não sendo respeitada é uma segurança. Um exemplo é na esquina da Ipiranga com a santana, sem a faixa os carros paravam em cima do sinal tirando o espaço dos pedestres.

  10. Sim, Prestes. Na prática, a sinaleira exclusiva de pedestres só abre quando os carros param de passar. Aquela da Sarmento Leite, em frente ao Campus Central da UFRGS, é assim que funciona. E dura uns 15 segundos só.

    Lamentável que coisas como esta que Manu descreveu aconteçam por aqui.

  11. Na av. Ipiranga em frente ao Xis Moita tem uma faixa de pedestres cuja existência é um perigo para todos, pois por lá os carros trafegam a 60 km/h. Se alguém tentar atravessar ou é atropelado ou provoca engavetamento.

    Esses tempos em dia de jogo do grêmio eu atropelei uma torcedora. Ela avançou o sinal vermelho para pedestres. O tio dela, que estava junto – e não atravessou – insistia que ela fora atropelada em plena faixa. Sorte que um brigadiano viu e assegurou que eu estava certo, pois passara no verde para motoristas. Mas a faixa é daquelas logo abaixo de semáforos, que pelo jeito só confunde. Então o próprio policial me aconselhou, enquanto aguardávamos no HPS, que eu me oferecesse a comprar o anti-inflamatório para a atropelada, dar carona pra casa e tudo o mais, pois se ela quisesse me processar, ela poderia. Era como se eu estivesse assumindo a culpa, mesmo não cometendo nenhuma infração de trânsito. Ser gentil com ela contaria pontos frente ao juiz no caso do julgamento, tendo o policial como testemunha. Ou seja, pelo jeito em caso de atropelamento mesmo fora da faixa, o motorista é quem tem a culpa. Em cima da faixa, então, acho até que consideram tentativa de homicídio (doloso) ou coisa parecida.

    O exemplo positivo é que aqui em Canela e Gramado TODOS param na faixa. É muito bom ser pedestre, e é super-tranquilo ser motorista, pois é um hábito saudável já incutido na consciência geral, e todos são responsáveis por mantê-lo. Lembram daquele episódio do desenho do Pateta? A cidade era um caos. Então houve uma mudança cultural total, todos começaram a ser gentis no trânsito (não lembro bem como conseguiram isso). Mas foi só alguém estar atrasado e avançar o sinal que o outro se sentiu prejudicado, e aí foi efeito cascata, ficou pior que antes.

    Bom, o certo é que comparar a capital de 1,5 milhão de habitantes com cidades turísticas que não somam 80 mil juntas não é o ideal, mas o respeito no trânsito pode sim ser realidade.

  12. Seja bem-vinda por aqui, Suzana!

    Eles andaram colocando asfalto por cima de umas faixas mesmo. E pintaram outras. O problema maior continua sendo os motoristas. Às vezes também os pedestres, é claro, como nesse relato ruim do Fernando. Mas aí tb acho que pesa a questão do parco tempo que os sinais para pedestre ficam abertos.

    Sigam opinando! Reitero que falarei com a Prefeitura sobre algumas questões.

  13. “relato ruim”, uhsdauhasdhas

    me expressei mal, relato triste fica melhor, hassuh

  14. Todos os dias, quando ando (à pé ou de bicicleta) pelas ruas de Porto Alegre, me vem à cabeça sempre o mesmo pensamento:

    – CARALHO, como tem carro nessa cidade!!!

    Nossas vias urbanas estão todas abarrotadas de carros. Apesar já termos um Plano Diretor Cicloviário, parece inexistir o interesse do poder público municipal tirá-lo do papel.

    Fogaça se reelegeu prometendo construir ciclovias na Ipiranga e na orla. A julgar pelo imobilismo de seu primeiro governo, acredito que os ciclistas continuarão tendo que disputar espaço com carros (e motoristas realmente muito mal-educados) nas ruas e avenidas.

  15. Assino embaixo do comentário do Muniz. Porto Alegre já está abarrotada de carros, e o que se vê por parte do poder público é um incentivo ao uso do carro (como o estacionamento no lugar onde ficavam os camelôs), enquanto o transporte público piora a olhos vistos e também as ciclovias não saem do papel.

  16. Segundo relatos de amigos que moraram por lá, existem metrópoles da Europa que não tem qualquer ciclovia. Simplesmente a educação dos motoristas garante a segurança dos ciclistas.

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