Preconceito e cegueira à gaúcha

Por Felipe Prestes

A onda do politicamente correto, iniciada já há algumas décadas, tem contribuído bastante para que manifestações de intolerância não ocorram com demasiada naturalidade. Por outro lado, tinha o revés de nos esconder o preconceito, de nos fazer acreditar em uma derrocada, ou quase extinção, deste modo de pensar o outro.

Agora, com a crescente interatividade da Internet, os comentários preconceituosos têm se proliferado, amparados pelo anonimato, e nos fazem perceber que estamos longe de ter uma classe média consciente das diferenças, da diversidade, e disposta a combater as desigualdades.

Durante o Carnaval, o site zerohora.com noticiou a invasão de um conjunto habitacional construído pela Prefeitura por outros necessitados que não os que receberiam as casas. Chocado, mas não muito, recolhi alguns comentários sobre o tema:

JAIRO

Denuncie este comentário22/02/2009 12:25

INVADIU? CADEIA. PESSOA TRABALHADORA E DE BEM NÃO INVADE PROPRIEDADE ALHEIA. ISSO É CRIME.

Carnavalesco

Denuncie este comentário22/02/2009 12:38

Eta povo brasileiro! Dinheiro pra comprar casa, educação, saúde, nunca existe. Mas dinheiro pra carnaval, fantasias, folia, parece que sobra. Povo que prefere um sambódromo a um hospital ou uma escola (de verdade, de salas de aula) não merece respeito.

Ricardo

Denuncie este comentário22/02/2009 14:24

Coronel Mendes neles!! Essa chinelada é profissional e se prolifera como barata!!Se eles conseguirem ficar com as casas, venderão na semana seguinte, e depois invadirão em outro lugar..Já vi esse triste filme na zona norte!!Pobre zona sul!! Ah,não se espantem se eles içarem algumas conhecidas bandeiras!!!

  • Nome: C. BALLA
    Cidade: poa
    Estado: RS
    Data: 22/02/2009 13:29

por essas transferencias a zona sul de poa tá dominada por travecos e vendedores de crack em toda esqina

  • Nome: vagner tech
    E-mail: techdosrs@hotmail.com
    Cidade:
    Estado: RS
    Data: 23/02/2009 10:07

Paulada neles, bando de vadios, ninguem mais luta nesse pais, ganham tudo de mão beijada. Pra vadio cada vez mais, pra quem trabalha cada vez menos, pior que essa tropa de vadios são os pseudo-intelectuais que poem a culpa de tudo nas mazelas socias e aplaudem as doações do governo! Eu trabalho e não tenho casa propria, mas batalho pra ter, quando vejo isso penso que se eu não trabalhasse e estudasse seria mais facil, pois ganhar é mais facil que batalhar

  • Nome: Délcia
    Cidade: Poa
    Estado: RS
    Data: 21/02/2009 22:54

Tem uma citação biblica que diz:”…dar pérolas ao porcos…” nós que pagamos impostos estamos financiando essas moradias para estes moradores,que preferem viver na sujeira e marginalidade…eles já se acostumaram a viver na linha da pobreza e o pior de tudo isso é que não querem mudar de vida, pois mais fácil gritar pelos direitos do que pelos seus deveres e obrigações como pessoas integrants de uma sociedade democrática…questão de educação? tenho minhas duvidas…

Quando li tais comentários duas palavrinhas me vieram à mente: preconceito e cegueira. Não vou nem analisar expressões do tipo “se proliferam como baratas”, ou “dar pérolas aos porcos”, que me enojam. Mas voltando ao preconceito e a cegueira, é o primeiro que motiva a segunda.

O cego não quer ver o problema, quer distância do problema, quer que a polícia, com o “herói” Mendes, varra os pobres do mundo. E não quer enxergar que a solução passa bem longe da violência.

Está cego pelo preconceito, ponto comum de vários dos comentários recolhidos – e de alguns que ficaram de fora – de que o pobre não trabalha. Que o pobre quer é ganhar para sempre 300 reais do bolsa-família, invadir casas medíocres de conjuntos habitacionais, trabalhando somente ou com tráfico de drogas, ou prostituição.

Mentira. A maioria está por aí carregando pesados carrinhos, vivendo do lixo da classe média. Muitos se sujeitam a viver do tráfico, da prostituição, mas não têm nem perto das opções de quem teve condições de estudar desde cedo. E está longe de ser um paraíso ter que invadir casas, apanhar da polícia, se ver marginalizado.

E a classe média finge não enxergar que se beneficia com a situação. É esta miséria, esse exército de desempregados, de gente com pouco estudo, que faz com que se proliferem os sub-empregos, que os salários de empregos que não se de nível superior beirem o ridículo.

Aí tem o porteiro, a empregada doméstica, um bando de gurizada trabalhando escravagisticamente em supermercado, todo mundo servindo o cidadão de bem, o defensor do trabalho, o defensor da ordem e do respeito à propriedade. O desentendido, o iludido que não sabe de nada.

E aí temos este mapa extraído de uma iniciativa bacana, de uma administração que não apoio, da Prefeitura de Porto Alegre, o Observa Poa, que oferece diversos mapas da cidade, sob o prisma de diferentes aspectos sociais.

Extraído do ObservaPoa

Extraído do ObservaPoa

Este mapa mostra a renda média dos responsáveis por domicílio em Porto Alegre e é um símbolo da exclusão social. Os bairros mais claros são os de maior renda, e em degradê chega-se aos mais escuros, de menor renda.

Qualquer um enxerga facilmente que há uma zona clara na região central de Porto Alegre que se estende por um trecho da orla do Guaíba na Zona Sul. Em volta, bairros com renda média de 5 a 10 salários mínimos, e depois os com renda média de 2,5 a 5 salários mínimos. Renda média, por isso é que nos bairros mais afastados não se chega a renda quase zero.

Percebam ainda que se contemplássemos a Região Metropolitana, teríamos esse quadro multiplicado em volta daquela pequena região central de Porto Alegre.

Não tem como dar certo esse modelo, não vai dar certo. Só quem sempre vai se beneficiar é quem pode andar de helicóptero, ter seguranças, etc. As mazelas sociais só vão piorar a vida nas grandes cidades.

Gente de classe média, por preconceito, acha que o pobre tem que permanecer quieto, trabalhando feito cão. Errado. A classe média tem que fazer o coro junto com eles para mudanças efetivas. Felizmente a maioria dos comentaristas de ZH, divergia destes animais.

Este texto foi mais um desabafo. Nenhuma preocupação com qualidade.

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15 Respostas para “Preconceito e cegueira à gaúcha

  1. As letras insistem em sair diferente, no meio do texto, perdi a batalha, uhuhsdauhasd

  2. Quando leio comentários como estes que pinçaste à luz de exemplos, fica fácil compreender a facilidade do crescimento do partido nazista na Alemanha de Hitler.

  3. claudia: pegaste de modo certeiro, mas pesado.

    geral: a classe média é, de certo modo, o produto da revolucao social e industrial que inaugurou o mundo como conhecemos hoje, criando e oficializando uma nova casta entre os pobres totais e os ricos totais. como muitos dizem: queres conhecer um país? observe sua classe média e veja o espaco dela nele. talvez pela complexidade deste processo num país como o brasil, a coisa demore mais que em outros, digamos a argentina.

  4. Nunca levo a sério os comentários que aparecem no zerohora.com. Tem uma amiga minha que cuida dos blogs e ela mesmo dizia que o nível dos comentários que chegavam para serem aprovados eram de péssima qualidade. Normalmente são os mesmos internautas que comentam, aí surgem essas barbaridades frequentes no site.

    Mas concordo contigo sobre o que falas da classe média porto-alegrense.

  5. Geralmente os comentários beiram o analfabetismo funcional. Por um lado é bom essas pessoas estarem participando, opinando. Por outro, escancara que o ensino no Brasil, seja ele privado ou público, é mais péssimo do que já diz o senso comum.

  6. Concordo em absoluto com este teu último comentário, Prestes.

    Educação, aliás, que seria o principal ponto para começar a incluir esta parcela excluída da população na sociedade. Sem um ensino de qualidade, não vamos a lugar nenhum.

  7. infelizmente me deparei com a minha afilhada, onze anos ora completados, fazendo uma pergunta estapafúrdia, mas temerosa. Estávamos comemorando o aniversário de meu pai, no bairro Cristal (ela mora perto do iguatemi). Na hora de ir embora, na rua, que termina numa vila, dava pra ouvir uma música e um pessoal reunido, provavelmente churrasqueando. Dava pra vê-los, estavam a 60 metros de nós. Se tratava da porta de entrada para uma vila.
    E ela me perguntou se todos aqueles eram ladrões.
    muito triste

  8. Bah, foda.

    Existem lugares da cidade que raramente aparecem quando não é para noticiar crimes. Por isso não é incomum que tenha gente até adulta que pense assim.

  9. eu levo muito a sério a existencia desses comentarios

  10. Recentemente, num almoço com a família da Luiza, discuti em alto tom com minha cunhada em função do fechamento das escolas itinerantes do MST.

    Minha cunhada é advogada, especialista em direito de família, filha de procurador de justiça, ou seja, vem de uma família de classe média alta. Ela defendia a iniciativa do procurador Gilberto Thums (que, aliás, frequentava a casa da família da Luiza), homem que implacavelmente persegue o MST no estado, defendendo inclusive sua extinção, pelo fato de usar métodos “anti-constitucionais” em sua luta pela terra.

    Sinceramente, fiquei horrorizado diante de tanto reacionarismo por parte de uma pessoa que estudou a vida toda em bons colégios, boas faculdades… O fato é que a classe média gaúcha (e brasileira, de modo geral) está com o pensamento completamente colonizado pela mídia corporativa e sua visão unidimensional da realidade. Minha cunhada lê ZH diariamente, possivelmente deve ler Veja também.

    Por outro lado, nossa imprensa dá a seu público-alvo aquilo que eles desejam: argumentos para poder colocar a culpa pelas mazelas sociais no outro, no pobre, no preto, no favelado, no homossexual, na mulher, no jovem, e assim eximir-se de sua responsabilidade pela situação da nossa sociedade.

    E dê-lhe cel. Mendes, dê-lhe repressão, cadeia para desocupados, bala contra quem invade terras… Sério, quando minha cunhada defendeu o direito dos fazendeiros se defenderem das ocupações na base da violência, em função da suposta violência do MST… que deviam sim contratar pistoleiros pra matar os sem-terra… que sem-terra é baderneiro, bandido, estuprador… que o MST faz lavagem cerebral nas crianças…

    Quando eu tentava contrapor seus argumentos, dizendo-lhe que deveria ler mais blogs e procurar fontes de informação na internet, a única coisa que ela sabia dizer é que eu era ingênuo de acreditar que o MST é um movimento justo de luta pela terra.

    Convidei ela a visitar um assentamento, para conferir de perto a realidade dos sem-terra: ela disse que não vai pois tem medo de não deixarem ela voltar para casa…

    Preconceito e cegueira: muito bem colocado, Prestes, me fez lembrar do Ensaio sobre a cegueira.

  11. Sim, por essas e outras é que, antes de acharmos que podemos ter governos mais à esquerda, é preciso tentar mudar essas concepções. O Brasil, generalizando toscamente, é um país ainda bastante conservador.

  12. Algo semelhante acontece quando converso sobre a violência com um amigo meu, direitoso pra caceta mas que não admite (é incrível como no Brasil a direita não se assume, com raras exceções como um outro amigo meu, que é de direita mas não reacionário como o primeiro).
    Esses dias, quando um idoso foi morto num assalto no Menino Deus, ele disse: “peraí, não foi assaltado, foi assassinado”. Eu disse que pelo que li o cara teria reagido, e a resposta dele foi “até parece que um senhor de 70 anos ia reagir, tem que matar essa cambada”. Mas tanto a ZH como o Correio disseram que ele reagiu, de acordo com o depoimento da senhora que o acompanhava (e para a ZH não dizer que foi “morto sem reagir”, é sinal de que realmente não tinha como fazê-lo).
    E não adianta nada eu dizer que é burrice achar que com pena de morte se resolverá o problema da violência: a maior prova de sua ineficácia contra o crime é o simples fato de ser aplicada onde é prevista, como em diversos Estados nos EUA (ou seja, não assusta os criminosos). Sempre digo que é preciso atacar a causa da violência, diminuindo a desigualdade social e investindo em educação. Mas os reaças insistem em apenas querer matar…

  13. Já te falei, né?
    No Brasil, em 2002, os 50% mais pobres detinham 14,4% do rendimento e o 1% mais ricos, 13,5% do rendimento. Entre as famílias brasileiras com crianças, 36,3% tinham rendimento per capita familiar de até 1/2 salário mínimo (Instituto de Pesquisas Aplicadas).
    E alguém acha que é bom viver de bolsa-família…Jesuiiiiis!

  14. Só um aluguel já comeria toda essa renda. Como é que o cara não vai invadir casas??

  15. Bom, atordoado fiquei eu ao ver que você divulgou sem minha autorização o que publiquei na Zero Hora no dia 22/02/09, ainda mais divulgando meu email, retire-o de sua “blogueta” pois em momento algum lhe dei a referida autorização.

    Minha opinião continua a mesma daquela data, independente da sua tentativa de ridicularização, respeite a minha idéia assim como respeito a sua, embora pelo seu teor de escrita, creio que é apenas mais um demagogo que se preocupa com a pobreza do próximo enquanto esta no conforto de sua casa, um pseudo-intelecutual de ciências sociais que defende de unhas e dentes o socialismo e as igualdade mas que nem de longe pensa em morar em Cuba, onde todos são iguais, leigos e mestres!

    Pior que isso que julgas como preconceito (minha opinião é a de demais), é a certeza de sua hipocresia igualitária.

    Sucesso nos proximos artigos, isso se ainda os escreve!

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