Uma Cidade Desbancada

(Felipe Franke/Da Cidade)

(Felipe Franke/Da Cidade)

Por Felipe Franke

Rondando pela Rua da República, na Cidade Baixa, desde às 11h, Róbson Rodrigues chegou a passar num café, e aproveitou o tempo livre para fumar um cigarro. Mas agora já são duas da tarde, e não podia passar três horas perambulando sem parar. Quis sentar-se.

Pois o banco que improvisou fica na frente de uma creche. “Minha mulher trabalha aqui. Estou esperando minha carona”. Vendedor, 33, Róbson, acocorado frente a uma grade de ferro, sente a falta de um lugar para sentar, coisa que não o impediu de me convidar para sentar ao pé da entrada do estabelecimento, a poucos centímetros do chão.

“É complicado, o cara não tem onde sentar na cidade. Mas também se entende”, fazendo referência aos gastos (que são, à principio, da Prefeitura) que envolvem manter um banco – bem como às chances de eles serem tomados por moradores de rua. “Fazer o quê?”

O que Róbson experiencia eventualmente é, para alguns, rotina.

(Felipe Franke/Da Cidade)

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Por sua função rotativa na Estapar, Marli Fagundes, 46, passa os diferentes dias da semana em diferentes pontos da cidade. Isso faz com que ela, a cada meio-dia, possa degustar sua pausa do pós-almoço em um lugar distinto. É nessa hora que puxa uma água sem gás, que fica bebericando enquanto lê um “romancinho” de Nora Roberts.

Onde fazer isso? “Nas praças.” Nunca nas ruas – “ah, não há mais bancos na rua” – e também nunca nos bares – afinal, “são muito caros”. Além disso, gosta mais é “de ficar aqui, ao ar livre, ver as coisas.” Nas praças, Marli geralmente encontras lugares livres. “Bares não, não vou ficar lá, passar o tempo fechada.”

“Às vezes, tempos atrás, dava pra sentar na frente dos prédios. Mas hoje está tudo gradeado”, finaliza saudosa.

É um pouco também de um saudosismo que inspirou Vivian Neuls, 37, fundadora e proprietária da Estação de Banho, uma refinada loja de artigos de higiene e bom ar na Padre Chagas. Dos bancos, que só encontramos nas praças, parece haver um irmão bem à frente da sua loja. Colocá-lo ali foi ideia da dona. “É como um sofá em casa. Você põe ali para as pessoas poderem sentar, descansar, ler um jornal.”

Tanto faz que não-clientes o utilizem. Estranhei que o banco de ferro, propriedade de Vivian, não é acorrentado a nada. “Um guarda noturno privado cuida da entrada da loja.”

A ação pública de Vivian já traz lucros privados. Atualmente, o banco pesado de ferro divide a calçada em frente à loja com dois sofás, patrocinados pelo Visa.

(Felipe Franke/Da Cidade)

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O processo de privatização do espaço público não é novidade – mas as pequenezas em que essa mudança estrutural se manifesta são interessantes. Em si, a perda de bancos públicos não é causa de trauma social algum. Mas o fenômeno está espiritualmente enraizado na modificação da sensação de estarmos na cidade.

Não poder parar na rua sem ser obrigado a consumir uma bebida mínima em algum estabelecimento significa não poder usar a cidade como sua casa. É o lado exterior da tendência de usarmos a rua somente como meio de locomoção, mostrando que nos definimos, hoje, muito mais pela nossa privacidade que por nossa publicidade.

Quanto aos bancos, eles sobram nas praças. Há tantos que nem os mendigos ocupam todos. Mas aí também – quem tem tempo de ir até uma praça e sentar-se num deles e passar uma hora olhando a vida da cidade? Não é tarefa para qualquer um.

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6 Respostas para “Uma Cidade Desbancada

  1. Muito boa a matéria.

  2. boa mesmo, uma questão que deveria ser mais discutida. eu sinto falta. em floripa mesmo, onde estive há pouco, tem mais q em porto. e em santiago, no chile, mto mais. não sinto, e isso é triste, a cidade como minha casa quase nunca. e como seria simples de mudar um pouco isso.

  3. essa questão dos bancos até é simples, difícil é mudar a nossa correria diária.

  4. sao dois elementos, entre outros, que se alimentam. eu gostaria muito que a prefeitura conseguisse tornar a cidade mais convidativa a ser observada e degustada a pé – por exemplo, cultivando bancos, limpeza, seguranca, etcetc. infelizmente, temos mais exemplos contrários: de bancos e lugares aconchegantes em lugares privados, e a via publica afastando o aconchego(exemplo máximo: carlos gomes).

  5. Excelente, Fipa. Quero deixar aqui minha sugestão de fazer uma matéria similar no que diz respeito à falta de lixeiras nas cidades. Em Capão da Canoa, é quase impossível achar uma fora da beira da praia. Em Porto Alegre, a situação não é muito diferente. O cara que tem uma latinha de refri na mão é quase CONVIDADO a jogá-la no chão. De nada adianta campanhas de conscientização ambiental se não há o MÍNIMO, que são latas de lixo em vias públicas.

    Abraço.

  6. Vicente, até acho que nas áreas centrais de Poa existem bastante lixeiras, inclusive bem novas e funcionais para os garis as esvaziarem. Porém, realmente, concordo com o texto do Fipa, que tá ótimo: só há bancos em praças, ou em locais que atraem turistas, como nossa praia de Ipanema. E taí algo curioso: peguei o Ônibus Linha Turismo semana passada e me impressionei com a quantidade de estrangeiros de vários cantos do mundo na cidade.

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