Fim de Feira

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Por Felipe Prestes

Não sei ao certo quando começaram a existir as feiras, mas sei que sempre quando penso nelas me remetem à Idade Média, à retomada do comércio na Europa. Creio que deva ser coisa bem mais antiga, mas enfim o fato é se trata de um aspecto cultural de bastante relevância. Pois agora, representantes políticos da elite porto-alegrense conseguiram acabar com uma das mais importantes feiras da cidade, o Camelódromo da Praça XV.

Locais que sempre foram de oportunidades, de convívio público, que ajudaram a abrir a Europa para o mundo, as feiras em Porto Alegre também têm importante papel. Mas esta em especial sempre foi vista como um estorvo, como algo que suja a cidade, principalmente sob os olhos do monopólio midiático que domina o Rio Grande do Sul. É certo que havia no Camelódromo alguma venda de produtos de má qualidade, mas isso por si só não justifica uma remoção, uma vez que podem ser vendidos estes produtos no novo local, na Avenida Voluntários da Pátria.

O que se pretende é ter um controle maior sobre os feirantes, além de evitar a ação dos ambulantes não-regulamentados, que conseguiam ficar ocultos nas proximidades do Camelódromo. Além disso, a retirada dos camelôs faz parte do que chamam de “revitalização do Centro”. Acredita-se que a elite voltará a freqüentar o bairro se houver menos pobres e mais lugares para estacionamentos. É como se não houvesse vida, por não haver gente mais endinheirada, e como se um espaço gerido pelos pobre carecesse de “higiene”, na pior acepção possível. Agora, com o formato de um shopping, e tendo custado milhões, pouco importa se a construção do novo camelódromo é feia, suja, ou que quer que seja.

Entretanto, os muitos comerciantes dos arredores, que faziam coro pelo fim do Camelódromo, podem ter dado um tiro no pé. “Eles traziam clientela”, afirma o barbeiro Geneci. Dono de uma barbearia no Mercado Público ele foi contra a retirada e acredita que o movimento no mercado vai ser reduzido. “Se fosse para assinar, eu assinava para eles não saírem”, garante. Duas verdadeiras instituições do Centro de Porto Alegre, o músico Paulinho da Gaita, e o vendedor de discos de vinil, Natan, conversavam animadamente no Largo Glênio Peres quando os abordei. Os dois têm opinião semelhante a do barbeiro.

Paulinho (à esq.) e Natan qualificam a remoção do Camelódromo como "burrice" e "decepção", respectivamente

Paulinho (à esq.) e Natan qualificam a remoção do Camelódromo como "burrice" e "decepção", respectivamente

É uma decepção. Não tem mais ninguém aqui”, resume Natan. “Os lojistas vão se dar mal. Pode escrever aí”, completou o ambulante.

O Deus que ajuda é o mesmo que castiga”, profetizou Paulinho da Gaita. O músico que bebe da fonte de Teixeirinha qualificou como “burrice” a estratégia dos comerciantes. E foi enfático: “Pode botar aí que é burrice deles”.

Proprietário de uma lanchonete no Mercado Público, José tem visão, de certa forma, discordante. “Em termos visuais, o fim do Camelódromo é bom. Deixa a cidade mais limpa”, opina. “Quanto à redução de movimento, fevereiro não é um mês ideal para se avaliar. Só saberemos em março”, acredita.

Comércio nos arredores da Praça XV pode estar caindo

Comércio nos arredores da Praça XV pode estar caindo

Nesse aspecto é o vendedor de discos quem discorda. “Dá para perceber mesmo em fevereiro. O pessoal da Voluntários tá feliz da vida, enquanto que os daqui de perto estão apavorados”.

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19 Respostas para “Fim de Feira

  1. mil vezes a praça XV sem ninguém.

    acho que dizer que são “representantes da elite” é mero reducionismo. Bem ou mal, a câmara é eleita pelo povo e o voto não é censitário.

    se perguntassem para mim, eu preferia muito mais um camelódromo organizado do que a desorganização completa da praça XV, que nada tem a ver com as antigas feiras. Nas feiras, e podemos ver isso nos dias da semana nos quais elas acontecem, não existe um achaque tão grotesco como havia na praça XV.

    ao mesmo tempo, é demagogia dizer que ela foi “devolvida ao povo”, pois ali foi feito um…estacionamento! É possível revitalizar a praça sem os achaques e sem o vazio completo. Colocar um palco para pequenos eventos, por exemplo, é uma solução possível.

  2. Não me referia à Câmara, mas à ZH , lojistas, políticos, polícia. E mesmo recebendo votos de todos, a maioria dos vereadores defende interesses bastante específicos da elite – e sequer o fazem veladamente.

    Minha experiência pessoal com o camelódromo tem momentos bons e ruins. Como consumidor só comprei uma vez e o produto não funcionou, fui reclamar, me trocaram por outro. Que não funciounou! Entretanto, quando fui acompanhar uma reportagem feita por uma colega, tive um convívio sadio com vários camelôs e passei a respeitá-los bem mais como trabalhadores.

    Mesmo com suas especificidades, acho que continua sendo uma feira. E creio que atende uma demanda que poucos lojistas têm interesse em atender.

    Acho que aquela muvuca trazia vida ao Centro e, como pude perceber algumas pessoas concordam comigo.

    No que fecho totalmente contigo é que é ridículo construir uma obra de milhões para obter um estacionamento de vinte, trinta vagas. Tua sugestão de um palco é boa, embora o Largo já seja usado para isso, com palcos móveis, é verdade. Enfim, estacionamento não revitaliza porra nenhuma.

    E essa é a mesma administração que quis transformar o Largo Glênio Peres em um estacionamento. Isso sim seria matar o Centro de Porto Alegre.

  3. Claro, o que eu faltou eu dizer na matéria é que provavelmente há pessoas que não são da elite que não gostam do Camelódromo.

  4. Os camelôs desorganizados realmente enchiam muito o saco, pra usar um termo técnico, e também prefiro a praça vazia do que aquela balbúrdia. O problema é que acho que o Camelódromo não funcionará (mero palpite), e colocar um estacionamento é brabo mesmo. Há diversas opções para revitalizar o espaço.

  5. E, como eu disse lá no Carta na Manga, parabenizo vocês pela belíssima iniciativa. Finalmente encontro jornalismo qualificado sobre a minha cidade, algo que considero muitas vezes mais importante que questões nacionais ou internacionais, com opiniões, contato com o público.

    Parabéns, gurizada.

  6. Pô, lisonjeadíssimo!

  7. Parabéns pelo blog! Sou favorável ao camelódromo. Primeiro, bem resumidamente, porque se manter com contrabando e descaminho não é um emprego a ser protegido. Segundo, porque tira essas pessoas da marginalidade e da informalidade a que estão submetidas. Contribuem – pagando tributos como todos, principalmente contribuindo com a Previdência Social. Por fim, quem quer comprar as coisas sabe onde estão – em um lugar acessível e de melhor estrutura. A praça, para todos aqueles que transitam por ela diariamente, como eu, está livre. Eu acho que, ao contrário de ser uma exclusão dos camelôs, o que houve foi a inclusão desses comerciantes que estavam ali irregularmente, à margem de nossa sociedade. Não sei se o Camelódromo dará certo (colocar ele em maiúsculo é um bom começo para que isso aconteça hehe), mas realmente espero que dê. Abração a todos aí e longa vida.

  8. Só uma sugestão: coloquem o nome do blog de algo mais estilo Marcelo Resende e Datena, tipo Poa Alerta ehuahue

  9. Opa, obrigado! Seja bem-vindo!

    Tenho dúvidas sobre se o camelódromo “aéreo” não pode ser bom para quem foi alocado lá. Apurarei. Mas também quis mostrar que pode não ter sido tão benéfico para o comércio do arredor da praça XV perder o que consideravam um estorvo.

  10. Poa Alerta = melhor nome

    Mas tenho medo que depois tu entre na Justiça pelos ROYALTIES, uhsadhusuhsuh

  11. Haha
    Prestes = Gil Gomes sem grife

  12. Quero dizer que, desde já, me alio à campanha Lourenço For President, hsuadususuhsdhausdhasu

  13. Ninguém mandou colocar “site” como item obrigatório huahueahu

  14. Mas como dizem que o Obama se elegeu graças aos bloggers, aceito o apoio e agradeço

  15. putz, rateei. vou corrigir isso, uhasuauhdsuhsd

  16. acho que agora deu.

  17. Olha, não fui ainda no novo camelodromo. mas, nunca fui mto simpáitca a ideia. Passo todos os dias pelo mercado público e para mim não teve tanta diferença assim. Claro, menor número de pessoas circulando, mas digo num plano geral.

    Achei detestável o tal estacionamento. Para piorar, no dia 3 de fevereiro na newsletter da prefeitura veio essa notícia:
    http://www2.portoalegre.rs.gov.br/cs/default.php?reg=102642&p_secao=3&di=2009-02-03

    Agora me digam: que planejamento urbano central é esse que quer colocar mais carros em um area que já está saturada?

    Sou bem mais a fabor do transporte público e alternativo. Ta aí, Prestes poderia ver como é a vida dos ciclitas porto-alegrenses.

  18. Também queria ver o Centro sem carros.

  19. Pingback: Um homem que gosta do que faz « Da Cidade

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