Bem mais que exótico

A cidade por outro ângulo

A cidade por outro ângulo

Por Felipe Prestes

Com sapatos apressados e apertados, as pessoas só torciam os pescoços pros lados, mantendo o passo rápido. Também fazia um calor do cão em Porto Alegre – a pressa era mais pra entrar em uma sala com ar-condicionado do que propriamente uma vontade de trabalhar. Eu, que estava mesmo era afim de observar tudo, parei para ver aquele grupo de jovens índios guaranis que cantavam agradavelmente bem, na Borges de Medeiros, à espera de alguém que parasse e jogasse ao menos uma moedinha. No chão, uma toalha com artesanatos expostos, e também vários exemplares em CD de um disco gravado pelos guaranis – sendo vendidos a quinze reais.


Quem anda pelo Centro sabe que não é um fenômeno isolado. Comumente, se enxerga índios de aldeias da região metropolitana de Porto Alegre – especialmente guaranis, talvez até a maioria da mesma tribo – utilizando sua aptidão artística para sobreviver. Caminhei mais algumas quadras e vi mais três grupos de indígenas vendendo artesanato – um destes grupos também se apresentava musicalmente.

Onças, tucanos e colares. O CD custa quinze reais.

Onças, tucanos e colares. O CD custa quinze reais.

Certamente os pequenos pedaços de terra que possuem hoje não lhes permite viver mais em um semi-nomadismo, nem desenvolver uma horticultura e criação de pequenos animais que seja suficiente para uma vida longe do contato com a grande cidade. Hoje, os índios que vivem nos arredores da Grande Porto Alegre precisam, ao menos, de uma pequena quantidade de dinheiro para sobreviver. E é o que fazem todos os dias no Centro.

Gurizada boa de música.

Gurizada boa de música.

Mas o que me chamou especial atenção naquele grupo formado por três rapazes e quatro meninas foi a qualidade da execução musical. Dois guris eram firmes no chocalho, com aquela marcação reta, típica da música guarani. Essa firmeza era entrecortada por melodias, em um ritmo que pode soar inusitado para nós, cantadas com muita beleza pelas gurias. Sérgio, de 15 anos, tocava violão, batendo nas cordas soltas – ou seja, só usa uma das mãos – e era uma espécie de maestro, coordenando a rapaziada. Muito diferente de algumas manifestações musicais que nos tocam muito mais pelo exotismo que pela qualidade. O grupo era da aldeia guarani m’bya da Lomba do Pinheiro, aonde o pai de Sérgio, Cirilo, é cacique, e foi quem lhe ensinou as técnicas musicais.

Sobre a situação destes índios, sou suspeito para falar, por que, como apreciador, acho lindo. E como músico prefiro muito mais tocar por aí que capinar a terra, entre outros afazeres rurais.

Mas agora, falando sério, é evidente que essa questão de terras para os índios é importantíssima. É justíssimo que obtenham o maior número de terras possível para que possam manter sua cultura, ou fazer com que esta se transforme, através de suas próprias escolhas, e não fiquem subjugados às contradições das grandes cidades.

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