La Catarina

Por Felipe Franke

Não é novidade que as praias de Santa Catarina, sobretudo as da capital Florianópolis, vêm se mostrando um dos principais destinos veranis da família brasileira do sudeste desenvolvido. Também não espanta a notícia da internacionalidade da antiga Ilha do Desterro: a frota latina vem desembarcando a passos largos, comandada pelos capitães argentinos, que peitam os nativos do nosso país, tornando a cidade, a cada ano, menos brasileira.

A novidade é que, neste verão, os nossos vizinhos de Conesul parecem realmente ser a maioria. Transbordam placas estrangeiras nas ruas de Jurerê, onde passei alguns dias. Alem dos hermanos, há tambem paraguaios e chilenos. A ausência quase total de uruguaios é digna de nota: pois embora fiquem mais perto, são minoria absoluta. (Causas possiveis e reais: eles têm as suas próprias playas e também menos dinheiro que seus vizinhos afortunados.)

Qualquer passeio à tarde (pois pela manhã eles dormem – estão de férias, oras) faz com que o castellano pareça predominante. A cada dez famílias, pelo menos um joga o jogo do disco. Camisetas de times argentinos pululam. As chicas, em trajes caracteristicos, andam em grupos. Todas bolinhas de frescobol que caíram perto de mim eram de uma dupla hermana.

Mas a predominância dos vizinhos é, sobretudo, resultado da ausência canarinha. Donos de estabelecimentos, comerciantes do mercado imobiliário, vendedores: todos reclamam da queda brutal do turismo esse ano. Crise financeira de Wall Street e arredores? Não. A resposta é: chuva. Sérgio, da Sérgio Imóveis, me disse a mesma frase que ouvi depois quando fui comprar um cigarro numa loja (vazia) de filmes: “Os jornais e a televisão acabaram com nosso verão. Fizeram propaganda e agora ninguém veio.” Confidenciou-me ainda algo assim: “São os argentinos que estão nos salvando.”

Os hermanos estão salvando o turismo da ilha, após as chuvas

Os hermanos estão salvando o turismo da ilha, após as chuvas

Sem brasileiros e, logo, com menos clientela, os alugueis estão no geral caindo em torno de 30%. Se as praias de Santa Catarina não fossem tão belas e não convencessem os nossos amigos latinos a peregrinar mais de 1500km, a perda talvez fosse maior.

Não deixa de ser curioso que este fenômeno coincide com a decisão do governo brasileiro de aplicar a lei devida aos motoristas estrangeiros. Como relatado por parte da mídia, isto gerou a ira de muitos, que talvez não voltem.

Seja como for o futuro, prezo demais a convivência de brasileiros, argentinos e todos os outros. Muitos reclamam que eles são “sujos” “baderneiros”, mas isso é puro preconceito, fruto de um intercâmbio cultural ainda paupérrimo, se considerarmos a proximidade geográfica e histórica dessas nações. A cultura nacional só tem a ganhar com a vinda cada vez maior dos nossos irmãos latinos perdidos – y nuestra plata también.

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2 Respostas para “La Catarina

  1. Pingback: internacionalidade.net - La Catarina « Da Cidade

  2. ae fiupa, muito bem observada a falha no intercâmbio cultural, realmente é bem pobre. parabéns pelo texto e pela iniciativa do blog. abçs!

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