É Dois de Fevereiro

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Por Felipe Prestes

 

Um breve relato dos festejos de Porto Alegre, África, Brasil  

 

 

É tão óbvia a influência das religiões afro-brasileiras no catolicismo praticado no País – como também o contrário – que às vezes até fica difícil delimitar quando se está praticando o que. Nesse caldeirão cultural também não se pode esquecer da recente, mas forte, influência do espiritismo e das intersecções que sofrem todos os cultos já citados com os cultos pentecostais, ou neo-pentecostais.

 

Mas o sincretismo entre os ritos dos negros e o catolicismo teve suma importância, forjando boa parte dos aspectos culturais do País. Foi a origem de diversos festejos e de diversas manifestações musicais, por exemplo. E foi uma forma de concessão velada, dos brancos aos pretos. De maneira simplificada, estes últimos poderiam realizar seus cultos, desde que fingindo serem católicos; enquanto que a elite, de origem européia, faria vista grossa se fosse seguida essa norma.

 

Hoje já não é preciso mais esconder-se para louvar divindades africanas. Mas as manifestações religiosas jamais voltariam a ser só africanas ou só européias, são genuinamente brasileiras. Mesmo assim, em um acompanhamento mais apurado do último dia dois de fevereiro, mostrou que ainda tem gente que prefere negar essa intersecção.

 

A cobertura do Jornal Nacional, por exemplo, mostrou, em pequena nota, que era dia de louvar Iemanjá em Salvador, e de procissão para Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre. Ou seja, na “negra” capital baiana uma manifestação apenas negra. Na “européia” capital gaúcha um rito católico. E a comemoração de ambos no mesmo dia – e ambos ligados à água – a mais pura coincidência. Veja só.

 

Entretanto, um olhar nem tão atento do cidadão que caminhasse pela orla do rio/lago Guaíba, em Porto Alegre, naquele dia de feriado, veria oferendas portentosas à Iemanjá e perceberia que muita gente desta importante cidade do sul do País professa mesmo religiões afro-brasileiras. Foi o que vi, quando caminhei do Parque Marinha até o Gasômetro. Vi muitos doces, adornos, rosas, em pequenos barquinhos de madeira.

As abelhas aprovaram o arroz doce

As abelhas aprovaram o arroz doce

 

 

 

 

 

E se muitas vezes teme-se a ira de Iemanjá quando se profana estas oferendas, me chamou atenção uma atitude diferenciada. Alzira Bencker, diretora espiritual da Casa dos Filhos de Iemanjá, no Bairro Bom Jesus, no dia que diz ser o mais especial do ano, caminhava pela orla recolhendo as frutas com casca das oferendas para ajudar quem passa fome.

 

Acompanhada dos filhos-de-santo Edson Araujo e Anisia Cândida Florêncio, explicou que a mãe não se importaria que estivesse auxiliando quem necessita. E, percebendo que meu olho estava irritado por um grão de areia que havia entrado, advertiu-me: “Passa camomila quando chegar em casa”. E seguiram seu caminho.

eles recolhem as oferendas com casca para matar a fome de quem precisa

Os filhos-de-santo Edson Araújo e Anisia Florencio acompanham Alzira Bencker: eles recolhem as oferendas com casca para matar a fome de quem precisa

 

 

 

 

 

Chegando mais próximo ao Gasômetro, onde há maior movimento, era grande o número de adeptos dos cultos afro-brasileiros. Dois grandes grupos, preparavam quantidade considerável de oferendas. Ali mesmo, um homem branco balançava um sino e, ao som de um chocalho tocado por uma mulher, entoava diversos cânticos, alguns bem lúdicos, outros mais religiosos.

 

Enquanto isso, com os pés dentro do rio, uma senhora abençoava pessoas que faziam fila para receber a benção. Foi cerca de uma hora, andando pela bonita orla do Guaíba e algumas fotos. Ficou ainda muita curiosidade. E um sentimento de que Porto Alegre é uma cidade bem mais negra do que se diz por aí.

 

 

Felipe Prestes

São muitos os praticantes de religiões afro-brasileiras

São muitos os praticantes de religiões afro-brasileiras

Este grupo preparava arranjos

Este grupo preparava arranjos

Dois peixes ficaram fadados a viver para sempre neste barquinho de madeira

Dois peixes ficaram fadados a viver para sempre neste barquinho de madeira

Muitas frutas para Iemanjá

Muitas frutas para Iemanjá

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4 Respostas para “É Dois de Fevereiro

  1. passou camomila quando chegou em casa?

  2. muito bom texto…

    se seguir com esse tipo de reportagem, promete.

  3. não passei camomila, rendeu uma longa história esse olho…

    para manter o nível estamos contando com repórteres da tua estirpe, luis, uhasduhasuashashuuh

  4. Excelente. Tive a mesma impressão que tu em Capão da Canoa, onde passei o Feriado.

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